crise académica de 1962

comemoração do cinquentenário


Recortes

Um ministro e um reitor sem coragem política
[publicado no jornal Público em Março de 2002]

António Melo - Jornalista

Aluno de Veterinária/Lisboa em 1961/62

Ainda hoje é difícil saber o dia exacto em que as Associações apresentaram ao reitor o pedido para a realização do Dia do Estudante. José Pedro Ferro, na cronologia que nos deixou sobre a crise académica, avança a data de 6 de Março (1). Nesse dia as direcções estudantis da Universidade Clássica tinham ido à reitoria apresentar um protesto por o ministro ter proibido a realização do I Encontro Nacional de Estudantes - que de resto se fez, embota tivesse custado à direcção da Associação Académica de Coimbra um processo conduzido pela Polícia Judiciária.

Esta atitude não significa dificuldade de relacionamento com o reitor. Pelo contrário, pode dizer-se que as direcções estudantis vão "dar parte" à reitoria do ministro da sua intenção. O peso político do ministro Lopes de Almeida era nulo, sobretudo quando comparado com o de Marcello Caetano. As direcções estudantis tinham reuniões regulares com o reitor e no dia 1 de Março concluíram as negociações para que as Associações de Estudantes (AE) ficassem com a gestão dos espaços circum-escolares, incluindo a Cantina.

Este bom relacionamento fazia parte do projecto de Marcello Caetano. Victor Wengorovius não fora seu aluno, mas tinha com ele relações próximas, pois o seu sogro, Miguel Bastos, governador civil de Setúbal, fazia parte do círculo íntimo do Caetano. Ele sabia que Wengorovius fazia parte dos "católicos de esquerda", com excelentes ligações tanto ao grupo do "Encontro", jornal da Juventude Universitária Católica, como ao do "Quadrante", o jornal da AE de Direito. Por isso, elegeu-o como seu interlocutor na abertura aos órgãos académicos.

Criou um conselho, que funcionava como uma espécie de senado universitário, onde tinham assento representantes dos professores, estudantes e funcionários. Wengorovius representava Direito e lembra-se que "havia real debate pedagógico", animado sobretudo por Lindley Cintra e Orlando Ribeiro.

Daí que a realização do Dia do Estudante fosse uma questão pacífica. Estava previsto que falassem Marcelo Caetano e Victor Wengorovius, em nome do conselho académico, com vista a dar-lhe maior representatividade.

A proibição do Dia do Estudante, ordenada na sexta-feira, véspera da sua realização resultou da pressão dos ultras sobre Lopes de Almeida, que resistiu até não poder adiar mais.

"Caetano tinha uma oposição interna dentro do regime, encabeçada pelo próprio Américo Tomás, onde sobressaia Cazal Ribeiro", disse Wengorovius, quando recordava os acontecimentos de 24 de Março de 1962.

"Havia um grupo da polícia de choque, com o quartel na Parede, comandado pelo capitão Maltês, e um outro, comandado pelo major Horta Osório, que devia ser o comandante da força, mas que por diversas vezes foi ultrapassado nas suas ordens". Foi o caso na ida para o restaurante.

Conta Victor Wengorovius: "Depois do discurso de Caetano [no Estádio, após uma carga policial], as pessoas foram-se deslocando para o restaurante [que ficava perto]. Diogo Freitas do Amaral e Jorge Sampaio foram nos seus carros, mas a maioria foi a pé, que nesse tempo eram raros os que tinham automóvel. Também houve muita gente que foi para casa. É então que o capitão Maltês volta a revelar que recebia ordens dos ultras e não do major, com quem Caetano negociara a ida dos estudantes para o restaurante sem problemas.

"De resto o major já estava no restaurante quando lá chegam os professores: o Lindley Cintra, a Maria de Lourdes Belchior, o Celestino da Costa, o Oliveira Marques e o Veríssimo Serrão, e já lá havia muitos estudantes. É então que se sabe que a polícia de choque fez nova carga e há quem tenha a ideia de fazer o major refém. Foi preciso acalmar os mais exaltados. Enquanto isso, Lindley Cintra telefonou ao Marcello Caetano a pô-lo ao corrente da situação. Eu e o António Taborda, que era de Direito de Coimbra, decidimos ir buscar o Marcello a casa. Estava convencido que se ele lá estivesse, a polícia era obrigada a recuar. De resto é o próprio major quem me apoia nesta decisão. Antes de sair ele tem comigo uma conversa muita curta, em que me pede para dizer ao Marcello que 'os majores estavam com ele'.

"O António Taborda, pretextando não ser íntimo do Marcello, ficou na sala de entrada e sou eu quem vai falar com ele. Quando lhe conto o que se está a passar, aponta para o telefone e diz-me que após o telefonema do Lindley Cintra tentou entrar em contacto com o ministro do Interior, o Santos Júnior, mas este nem lhe atendera o telefone. Abatido, sentado num sofá, desabafa: 'Já não mando nada neste país'."

Wengorovius tentou convencê-lo a ir com ele para o restaurante, mas ele recusou. "Isso só iria piorar as coisas".

É graças ao major que as "coisas" vão arranjar-se. Ele garante a saída dos estudantes e professores e combina com os dirigentes associativos que lhes deixará a faculdade de Medicina como "território livre", para eles poderem reunir-se durante o fim-de-semana. Era ele que comandava a força que ia ficar na cidade universitária, mas ia deixar a entrada livre para o Hospital de Santa Maria (onde fica a escola de Medicina). Adverte, contudo, que o "salvo-conduto" só é válido até ao meio-dia de segunda-feira, pois a partir daí pode haver um superior que lhe contrarie as ordens.

Foi na AE de Medicina que os dirigentes associativos preparam a resposta à proibição do Dia do Estudante e à invasão da cidade universitária.

1
"A Primavera que Abalou o Regime - Depoimentos de A. H. Oliveira Marques, Medeiros Ferreira e Trindade Santos", Ed. Presença, p. 30.