Março de 62 foi uma das datas que mudou a minha vida (mais tarde, houve Maio de 68 e Abril de 74).
Porquê Março de 1962, se eu ainda não andava na Universidade?
Porquê, se tinha 16 anos, provincianos e silenciosos?
Porquê, se ainda estava dividida entre o Cartaxo da minha infância, os moços forcados que tão bem dansavam e pouco falavam, os cadeados das janelas do Sidónio Pais e um liceu feminino em que não tinha voz nem vontade?
De uniforme ou de bata, passava do casarão frio de S. Sebastião da Pedreira, sempre acompanhada por prefeitas diligentes na sua vigilância, para o Liceu Maria Amália, numa Lisboa muito pequena, presa num internato de que raramente saía.
Porquê? Porque era uma jovem revoltada com a prisão a céu aberto em que vivia.
Porquê? Porque não percebia porque me diziam sempre não quando aos rapazes diziam sim (ir ao cinema, ao baile, à esplanada, sair, simplesmente SAIR dos espaços fechados em que se passavam, numa Lisboa estreitinha, os dias da minha, da nossa vida feminina).
Porquê? Porque tinha lido "Carta a uma jovem portuguesa", publicada na Via Latina em 1961 (orgão da Associação Académica de Coimbra) e a tinha copiado vezes sem conta em cadernos escolares. Porque às vigilâncias apertadas se responde com pretextos que nos asseguram espaços de fuga.
Nessa "Carta" vi-me ao espelho.
Li o destino das raparigas, das mulheres. Nunca gostei de espaços fechados e a "casa" nunca me atraiu. Não tinha jeito nenhum para lavores, uma desgraça. Não gostava de obedecer sem saber porquê. Detestava o poder sem fundamento. Tinha uma ânsia de liberdade a que não sabia dar nome. Era muito "má" para os rapazes, diziam. Rebelde, mas boa aluna, lá isso era.
Março de 62 foi o meu primeiro espaço de fuga formal, com razões, e com outros, muitos outros. Vocês. Foi a minha primeira infracção perigosa. (Tudo é relativo). Podia levar à expulsão do Sidónio e à zanga dos meus pais, professores,que me tinham trazido para continuar "os estudos". Quase pobres, os professores, acreditavam no valor da escola e não havia ensino secundário nas vilas de província.
Nesse meu 7º ano, ouvi dizer pelas alunas mais velhas do Instituto e ouvi no café em frente ao liceu – era proibido sair, mas saíamos às escondidas - que havia plenários no Estádio Universitário. Nunca tinha ouvido tal palavra, mas queria saber o que era. E é sempre assim, aprendi depois, quanto mais proibem, melhor sabe contrariar as regras impostas e absurdas. Acho que nós mulheres, jovens, nos anos 60, éramos especialistas em fugas e infracções.
"Não se podia falar", era perigoso ter opiniões, Humberto Delgado tinha passado pelo Cartaxo tinha eu 14 anos e essas frases faziam parte do meu vocabulário.
Pois em Março de 62 fui, com o pretexto de uma ida à Biblioteca Nacional, ao Estádio Universitário.
Ouvi finalmente palavras que sentia e a que não sabia dar nome. Num PLENÁRIO.
O meu coração bateu com tanta força quanta a das palmas maravilhadas. Que bem falavam o Eurico Figueiredo, o Jorge Sampaio, o Medeiros Ferreira, o Victor Wengorovius. Fixei-os bem. Soube-me a liberdade.
Senti-me entre os meus, sem saber o que isso queria dizer. Tinha a certeza de que havia outros mundos e que eu faria parte deles.
O resto do ano passou a correr, inventei cada vez mais mentiras para sair do Sidónio, para ler os livros sempre proibidos – só se podiam ler os que faziam parte do programa das disciplinas.
E em outubro de 62 lá estava eu, aluna do 1º ano de românicas a dizer ao Medeiros Ferreira que queria trabalhar com a Pró-Associação de Letras, sem pedir autorização a ninguém. Com 17 anos.
A partir daí, do encontro com o Ruben Ayash, das tardes na Cantina, dos cartazes e dos protestos, das fugas à polícia de choque, outro mundo começou.
Um mundo feito de esperanças, de certezas, de trabalho e de lutas.
Tinhamos muito pouco dinheiro, comecei logo a trabalhar, depois da expulsão (fatal!) do Instituto Sidónio Pais. Éramos solidários e felizes.
Em 1965 fomos para a Suiça, deixando a estreiteza da sociedade portuguesa e a guerra colonial, deixando também todos os amigos, com o desgosto dos pais, claro.
E na Suiça, trabalhei, estudei e continuei o caminho que começou em Março de 1962: "Estudante consciente do caminho a percorrer, vamos dar as nossas mãos, unidos até vencer".
Voltei em 74. E já tinha aprendido a falar. Em 1968. Sabendo que o mundo só tem as fronteiras que aceitamos.
E hoje, 50 anos mais tarde digo-vos, meus amigos: liberdade, fraternidade e igualdade. SEMPRE.
Homens e mulheres, juntos pela democracia.
Aprendi esta lição convosco e foi o que de melhor aprendi em Portugal.