crise académica de 1962

comemoração do cinquentenário


Testemunhos

Do que me lembro:

Cabral Pinto - Doutor em Ciências da Educação, ESE Jean Piaget, V.N. de Gaia
(Estudante de Direito, Coimbra, em 1962)

Clima de entusiasmo e expectativa: sentia-se que o fim do regime estava por pouco e que nós estávamos a participar no seu derrube. As assembleias magnas sucediam-se. Corríamos de uma reunião para outra. Todos os dias circulavam vários comunicados (lembro-me deste: "Comunica-se que hoje por ser sexta-feira não haverá comunicados").

Episódio do dia do estudante, 24 de Março:

A concentração comemorativa seria na cidade universitária de Lisboa. Pensámos ir apanhar boleia para a ponte de Santa Clara. Como éramos irremediavelmente preguiçosos, o jacinto e eu chegámos tarde: a fila dos utilizadores deste modo de viajar era interminável. Chegámos à conclusão que o melhor seria optar pelo comboio. Soubemos que estava um para partir com malta do coral das Letras. Fomos nesse. Porém, a polícia de todo o país (designadamente Porto e Coimbra) estava a evitar a deslocação de estudantes em direcção a Lisboa. Houve, em consequência, ordem para deter o dito comboio na Amadora. Os passageiros comuns estranharam: o comboio não costumava parar naquela estação. A demora foi longa. Sem suspeitar de nada, ficámos tranquilos.

A páginas tantas, entraram na carruagem uns javardos carregados de material de guerra. Pela primeira vez vi uma metralhadora apontada ao meu peito. Toda a gente que trajava capa e batina foi obrigada a abandonar o comboio. A estação estava cercada de polícia de choque. Fizemos uma avaliação para a hipótese de fuga. Impossível. Queríamos aproveitar a situação para fazer escândalo junto da população perplexa que se encontrava na estação ou nos arredores. Ensaiámos então a cena da ocupação da linha. A adesão foi pequena porque a situação em que nos encontrávamos não tinha sido prevista. Paciência. Para provocação, o Jacinto ainda se lembrou de perguntar a um dos mastodontes fardados se o armamento era a sério ou era só para assustar a malta. A resposta foi muda, mas fez calafrios. Entretanto, chegaram à estação carrinhas da GNR. Fomos empurrados para as ditas. Tínhamos já formado um grupo que entrou para a mesma carrinha. Juntámo-nos atrás e iniciámos um animado festival de canções revolucionárias ("canta, camarada, canta", etc.). Eu berrava, não cantava (cantar não era manifestamente o meu forte). O que importava era chatear os bófias.

A partir de certa altura, começámos a reivindicar uma paragem para alívio fisiológico. E houve, de facto, uma paragem no Carregado. Sempre vigiados, dirigimo-nos a uma tasca. Numa mesa estavam quatro matulões, musculosos representantes da classe operária. Jogavam cartas com ar conspirativo (parecia-nos). Segredamos-lhes que estávamos detidos. Um, decidido, quis saber quantos guardas formavam a escolta. Adivinhávamos uma cena violenta. A libertação num gesto de solidariedade revolucionária. Mas logo outro, mais céptico quanto à firmeza da nossa opção de classe, atalhou: "não te inquietes, eles têm quem os proteja". Ora, porra!

Regressámos ao nosso cárcere móvel. A marcha era lenta e enviesada. Ao tempo, não havia auto-estrada. Bastantes quilómetros adiante, voltámos a parar (alguém, numa das primeiras carrinhas, convencera os guardas de que ou fazia xixi ou morria). Parámos num descampado. A noite já caíra, estava escuro como breu. O Rui Neves avisou que não voltaria para a carrinha. Lenta e cautelosamente, foi-se afastando, descampado fora. Nunca mais o vi. Até hoje.

Chegados a Coimbra, fomos à esquadra para identificação. E depois voltámos à luta.



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