A crise de 62 foi bastante movimentada para mim: fui uns dias para Caxias, fui expulso da Universidade de Coimbra. Também ia no comboio interceptado na Amadora. Um comboio da pouco frequentada Linha do Oeste, em vez da previsível linha do Norte. Preventivamente, eu e o César Oliveira, fomos antes a casa tirar a capa e batina, pensando que em Lisboa ela seria um elemento ostensivo de identificação que não trazia qualquer vantagem.
Até à Amadora, a viagem já foi narrada pelo Cabral Pinto. Quando a polícia de choque entrou na carruagem, deu ordem de saída a quem fosse estudante de Coimbra, dado que na nossa carruagem não iam só estudantes de Coimbra, embora fossem a maioria. Nós, que estávamos à "futrica", ainda pensámos em ficar onde estávamos, fingindo não ter a nada a ver com o assunto. Mas logo desistimos, pensando que era pior ficar isolados, correndo o risco de ser descobertos, do que estarmos junto da malta. E saímos como todos.
No largo que existia em frente da Estação, as dezenas de estudantes de Coimbra ali interceptados foram cercados por um contingente de polícia de choque mais numeroso do que o próprio grupo de estudantes. E ali ficámos à espera que chegassem as carrinhas da polícia que nos haviam de recambiar para Coimbra.
Foi então que duas colegas , que estavam junto de mim e do César Oliveira, que aliás nem se conheciam uma á outra, desabafaram contristadas que elas nem tinham nada a ver com o Dia do Estudante e que iam para Lisboa por motivos particulares, que nada tinham nem de gloriosos nem de subversivo. Logo ali o César as instigou a reclamarem, a exigirem reparação pelo abuso de autoridade e a resolução do contratempo que lhes haviam causado. Os mais próximos secundaram logo as colegas, que estavam visivelmente atrapalhadas. O César falou por elas, interpelando o polícia mais próximo, para dizer que havia ali quem não fosse para o Dia do Estudante e que não era aceitável que os tivessem arrancado sem razão do comboio, tanto mais que tinham família à espera. O polícia de choque ainda perguntou porque não tinham dito isso no comboio, mas foi-lhe respondido que tinham mandado sair todos os estudantes de Coimbra sem qualquer outra menção, pelo que tinham saído todos.
Com algum espanto, vimos o improvável a acontecer. O polícia deu-nos ouvidos e dirigiu-se a um superior. Daí a alguns minutos voltou, dizendo que ia ser conseguido transporte para Lisboa, a quem tinha saído do comboio por engano, dado não ir para o Dia do Estudante. Não era cómodo, mas era o que se podia arranjar. Até então, na nossa cabeça, quem estava nessa situação eram as duas estudantes, como nós sem capa e batina . Mas quando se tratou de irmos para o transporte, uma carrinha aberta com bancos de madeira, o polícia que se dirigiu àquela parte do grupo, perguntou quem é que tinha saído por engano. Como ali naquela zona eu e o César estávamos sem capa e batina, num gesto espontâneo, associámo-nos de imediato, com o máximo de naturalidade, às duas colegas que realmente tinham saído do comboio por engano. E lá fomos os quatro numa carrinha aberta da PSP, rumo a Lisboa. Assim, ao mesmo tempo que, como contou o Cabral Pinto, várias carrinhas da polícia rumavam a Coimbra, nós os quatro éramos transportados para Lisboa; e ás 10 e meia da noite fomos deixados sem sobressaltos no Rossio.
Dormi em casa dumas primas do César e ao outro dia de manhã lá fomos para a Cidade Universitária, onde desde logo vimos a polícia de choque "limpar" de estudantes a Pró-Associação de Medicina que funcionava no Hospital de Santa Maria.